A Folha.com publicou uma reportagem sobre um departamento da Universidade de Brasília que dá o que falar no meio acadêmico: é o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, que tem como objetos de estudo ufologia, astrologia e conscienciologia. Alguns acreditam que há problemas em financiar com verbas públicas um grupo de estudos como esse, pois o dinheiro para ciência não deve ser dividido com esse tipo de conhecimento. É raro encontrar algo dentro dos limites da universalidade da cultura humana que possa ser mais arrogante do que esse tipo de pensamento sectário e preconceituoso.

Há uma expectativa sobre a ciência atual, respaldada tanto por uma mentalidade cientificista quanto por uma suposta necessidade desenvolvimentista, que dá ao conhecimento científico status de verdade ontológica. Tal expectativa só se concretiza no contexto no qual nossa civilização se insere temporal e espacialmente. Tudo bem que a universidade foi pensada sobre ideais iluministas, racionalistas, positivistas e todo o mais – o que sustenta nossa crença cega em uma causalidade cartesiana, mas daí para dizer que a universidade não pode financiar astrologia é preciso um salto considerável.

Astrologia e ufologia, assim como as ciências, são formas de se representar o mundo. Expressam visões de mundo, nada além disso.  Pesquisas sobre esse tipo de conhecimento podem não ser interessantes para um cientista ordinário, ainda assim não são menos razoáveis para algumas pessoas, como aquelas com quem convivemos em nosso dia-a-dia. Essa justificativa deveria ser suficiente para aceitarmos a produção de conhecimento (não-científico) nesses campos de estudo. No entanto, o status de verdade das ciências parece ser inabalável e intocável.

Tanto astrologia quanto as ciências são embasadas em hipóteses. Embora algumas hipóteses sejam mais fortes do que outras, isso ainda não faz das ciências representações que excluam a validade das não-ciências em um certo domínio de vivência. O método científico é só uma hipótese, por mais sofisticada e eficiente que o seja. A Física explica muita coisa e por isso é genial. Experiência e observação são sim muito úteis e funcionam muito bem para o desenvolvimento do conhecimento científico. Mas não são verdades em si. Por mais fantásticos e fascinantes que sejam seus resultados, ainda são apenas hipóteses fortes.

A rigor, não faz sentido financiar uma ciência que estude o universo distante – do tipo a astronômica – só porque as teorias físicas funcionam aqui no nosso mundo. Ou não é questão de fé o fato de as leis físicas serem as mesmas em todo o universo?

Estudar teologia e astrologia na universidade é tão interessante quanto estudar filosofia. Se estudadas na universidade, a função da teologia e da astrologia não deve ser a de formar profissionais para o mercado, mas sim fazer pesquisa que ajude a construir esses saberes. Um teólogo pesquisador pode ser diferente de um padre ou bispo, assim como o João Bidu não deve morrer de amores pela pesquisa. Então qual o problema em pesquisar teologia e astrologia?

A universidade não pode ser meramente utilitarista, financiando uma fatia do conhecimento que pode ser produzido e desenvolvido pela sociedade contemporânea. Nesse sentido, astrologia e paranormalidade devem ter tanto espaço no financiamento de pesquisa básica quanto qualquer ciência. Não basta conhecimento científico para satisfazer os anseios das pessoas em toda sua diversidade; se assim o fosse, qual espaço se daria para o amor, uma poesia ou uma daquelas obras de arte que tocam nossos corações sem a justificativa de uma lei natural? Há humanidades incapazes de serem expressas por qualquer linguagem, nem mesmo a científica. Vetar financiamento à astrologia, ufologia, teologia ou qualquer que seja a área de conhecimento é mutilar uma parte importante da cultura construída ao longo de nossa história.