Doações no mundo musical

5 de Abril de 2009, por Desconhecido - 22 comentários

Já pensou em recompensar um artista de quem você gosta muito de outra forma que não seja comprando um cd ou indo a um show? Me ocorreu que enviar dinheiro diretamente ao músico ou à banda possa ser uma boa opção.

Há pouco mais de um mês baixei Contra Todos, último cd do Dead Fish, banda de hardcore do Espírito Santo. Gostei tanto que fiz questão de enviar alguma quantia em dinheiro para eles ao invés de comprar qualquer tipo de material deles.

Fiz a proposta ao Alyand, baixista da banda, com quem troquei alguns emails. Ele não gostou da ideia de doação. Disse que o encarte é legal e o cd foi feito de coração, e me incentivou a ir até a loja e comprar o redondo.

Respondi: gostaria muito de fazer uma doação pelo o que vocês representam não só para o cenário musical no Brasil mas também pela ideologia que o seu trabalho traz em si e sua importância na formação política da juventude que dá ouvidos ao Dead Fish.

Do ponto de vista global, a cultura de doações é uma alternativa para tornar o mundo musical sustentável ou até mesmo para um novo modelo de mercado, como mais um canal de vocês com os fãs sem a necessidade de um banco atravessar nossa relação e lucrar às nossas custas (pelo menos em um futuro próximo).

Do ponto de vista pessoal, não coloco um cd em um player há anos principalmente por ser mais prático baixar um álbum do que ripá-lo. E não posso comprar um objeto e ajudar a produzir mais plástico sendo que não vou usá-lo. A arte de fato me interessa, gostaria de poder apreciá-la, mas não me interessa tê-la.

Peço desculpas, mas não posso comprar o cd de vocês. Ainda assim faço questão de contribuir com seu trabalho. Espero que esteja aberto a essa troca de ideias.

No final das contas, o rapaz acabou aceitando apesar de ainda não gostar de doações com esse caráter. Disse que os 70 reais que depositei em sua conta depois de nossa conversa serão doados a um amigo que está desempregado há algum tempo.

Acho essa cultura importante para que a cena musical independente sobreviva e, por que não?, se torne autogestionável num futuro próximo.



Gilmar Mendes e a sabatina da Folha

29 de Março de 2009, por Desconhecido - 66 comentários

O ministro Gilmar Dantas - ops!, Gilmar Mendes foi sabatinado nesta terça-feira, 23, no Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis. Compunham a "mesa" Mônica Bergamo, Eliane Castanhêde, Fernando Rodrigues e Renata Lo Prete. Ótima oportunidade para conhecer esse ministro, personagem de importância fundamental na atual conjuntura nacional. Apesar de ele não fazer parte dos poderes Executivo e Legislativo, é um juiz que se sente à vontade de agir como se estivesse lá.

Protógenes e Satiagraha
Os jornalistas não amaciaram para o ministro tanto quanto se esperava: foram um tanto contundentes em vários pontos - talvez seja um indício de que a política da Folha esteja mudando, provavelmente impulsionada pela redução no número de assinatura de seu jornal impresso. Bergamo inclusive se exaltou ao ser contrariada em sua pergunta sobre a tentativa de suborno por parte de Chicaroni a mando de Daniel Dantas e os dois habeas corpus emitidos pelo ministro; na prática, ele ignorou o episódio em que foram apreendidos R$ 865 mil oferecidos por Chicaroni e foi feito o registro em áudio da conversa em que foi oferecida a quantia em troca de se retirar o nome de Dantas da lista de investigados pela Polícia Federal na Operação Satiagraha. O ministro disse que não houve forte indício de suborno (!) e alegou que a segunda prisão do banqueiro Dantas foi uma tentativa de desmoralizar o STF.

Perguntado sobre o interesse por trás de tal desmoralização, quem sabe de um grupo de anarquistas em busca de derrubar o STF, escapou como um sabonete e se aproveitou do tema já bastante discutido até então.

Excessos
Quanto aos excessos do Judiciário, caracterizou o Ministério Público, PF e "aquele juiz", referindo-se a De Sanctis, como agentes de um estado de anarquia, do qual não havia um controle externo.

Ao ministro foram atribuídas responsabilidades as quais o fizeram tomar as atitudes cabíveis, inclusive no episódio da súmula das algemas. Disse que nem sempre há interesse por trás de ações, inclusive das suas, e criticou esse mccarthysmo que permeia as críticas a ele dirigidas.

Ressaltou que o STF é uma instância de mais fácil acesso do que outras instâncias regidas, por exemplo, por iminentes desembargadores - essa foi a justificativa para a emissão dos dois HC que libertaram Dantas.

A pergunta natural é por que só a Dantas foi dado esse privilégio, e ele a respondeu lembrando do número de HC emitidos pelo STF em 2008 (18 ao todo); segundo ele, só os de Dantas são lembrados por algumas colunistas... mas ficou um vão na explicação do por que pular várias instâncias para favorecer um banqueiro enquanto muitos não têm a perspectiva desse privilégio.

Castanhêde questionou a correria para libertar os ricos em detrimento dos pobres. Ele respondeu, de acordo com toda a cara-de-pau que ensina a velha escola malufista, que corre na verdade para mudar o "processo civilizatório, para dar um caráter de século XXI ao Brasil".

Demarcação, crucifixos e presidência
Falou também da criação de um estatuto de demarcação de terras indígenas, em especial da reserva Raposa/Serra do Sol. Se defendeu da contra-ofensiva dos movimentos sociais com relação à criminalização do MST por ele protagonizada há poucos dias, alegando ser de famílias ligadas à atividade rural - por sinal, segundo ele próprio sua família mora em Mato Grosso há pelo menos 200 anos e ainda assim não possui muitas terras. Mais uma vez, como é de se esperar de um discurso constitucionalista, afirmou que se houvesse uma legislação adequada não precisaria entrar no mérito da demarcação de terras.

Quando questionado sobre a decisão do Conselho Nacional de Justiça contra a retirada de crucifixos de prédios públicos do RJ, alegou que esse símbolo é só uma manifestação cultural, inserida na "cultura ocidental que tanto amamos" (o ministro falou por ele).

Não quis responder se uma dia pode ser candidato à presidência. Não disse, mas é provável que sim. Disse admirar Lula e achar FHC um estadista. Não quis falar sobre Protógenes e De Sanctis, fugindo do assunto mais polêmico no qual atualmente está envolvido.

Protesto
Depois de tentar se esquivar das acusações de agente da atual ditadura do Judiciário, criminalização dos movimentos sociais, esforço em privilegiar banqueiros, conflito de interesse em questões agrárias, dentre tantas outras práticas no mínimo questionáveis em seu mandato como presidente do STF, foi chamado de nazista e facista por manifestantes do PSOL e da UBES, presentes na saída do teatro. Tais adjetivos podem ser exagerados, mas chega a ser natural para um servidor público que usa a máquina em seu favorecimento e de seus comparsas.

Gilmar Mendes não se preocupa em se expor ao extrapolar o poder a ele concedido e não se preocupa quando não encontra justificativa para suas ações. Isso só mostra que cada vez mais se fortalesse dentro da política nacional e que não possui adversários à altura, o que o transforma em um personagem praticamente imbatível dentro da atual conjuntura política do Brasil.

Mais:
Sobre a sabatina, do blog de Paulo Henrique Amorim
Sobre a sabatina, do site da Folha



Atribuição de aulas no Estado de São Paulo

22 de Março de 2009, por Desconhecido - 2727 comentários

Se é a primeira vez que tentou participar do processo de atribuição de aulas para professores do estado de SP e em algum momento se sentiu perdido, achando que nada daquilo que estava acontecendo fazia sentido, compartilho dessa indignação. Caso ainda não tenha participado, vou te relatar o que acabei de passar.

O que é
O processo de atribuição de aulas é o procedimento adotado pela Secretaria do Estado de Educação (SEE) para dividir as aulas entre os professores da rede estadual de ensino, tanto fundamental quanto médio. Por haver uma série de problemas e vícios que com o passar do tempo foram sendo incorporados ao processo, além de ser uma rede com um número fantástico de professores, a SEE vê necessária uma série de medidas para viabilizar o processo.

Temporários e efetivos
A primeira medida é classificar os professores em regimes diferentes de acordo com seu vínculo com a SEE e sua formação e, de acordo com essa classificação, são dadas as prioridades de escolha de escola e horários. A princípio existem os professores efetivos, temporários e os eventuais. Os efetivos são funcionários públicos, que passaram em concursos. Os temporários ou OFAs (Ocupante de Função Atividade) são contratados em um regime precário, e devem renovar o contrato anualmente de acordo com as imposições da SEE publicadas no Diário Oficial. Como não são feitos concursos anualmente, faz-se necessária a contratação de temporários para preencher as vagas que os efetivos não conseguem cobrir. Já os eventuais, também conhecidos como substitutos, preenchem as vagas das duas outras categorias quando os professores faltam ou são afastados por algum motivo. Se você for em busca dos editais das atribuições, verá os professores divididos em titulares, adjuntos, estáveis, não-estáveis e contratados. Ainda não sei por quê, quando souber completarei o texto.

Critérios de seleção dos temporários
Os professores temporários são alocados anualmente nas vagas que não são ocupadas pelos efetivos. Até o ano de 2008 os OFAs foram classificados seguindo um critério e, de acordo com a classificação, tinham prioridades uns sobre os outros. Primeiro as vagas eram dadas aos professores com licenciatura plena, depois aos com licenciatura curta, então aos licenciandos de último ano e por último aos bacharéis e tecnólogos. Dentro dessa estratificação, existe uma pontuação de desempate, com base em tempo de serviço pela SEE (não conta aulas no ensino municipal ou de outros estados) e em títulos. Assim, um professor que tenha cumprido toda a carga horário em um ano, ou 200 horas, ganha 1 (um) ponto, ou 0,005 pontos por hora-aula, enquanto mestres e doutores ganham 5 e 10 pontos, respectivamente. Um exemplo: aquele professor que tenha dado aula no estado durante 10 anos pode somar até 25 pontos, no caso de ter concluído mestrado, doutorado e 200 horas de aula anuais sem faltar nenhuma vez.

Até que, para a atribuição de aulas de 2009, foi criada a famigerada provinha.

O que foi a provinha?
O processo seletivo simplificado, ou provinha, criado pela SEE, funcionou da seguinte forma: uma prova de duas horas de duração, aplicada em um único dia, contendo 24 questões sobre conceitos básicos da disciplina a ser ministrada (banca) e as propostas curriculares (também chamadas de PCN, de parâmetros curriculares nacionais), teve de ser feita por todos os candidatos a professor temporário. O inscrito na prova estava automaticamente cadastrado no processo de atribuição de aulas. As questões de múltipla escolha, com 4 alternativas, valiam 3,2 pontos cada, podendo totalizar 80 pontos. Para o desempate dos professores dentro de uma dada formação, valeria a soma da pontuação da provinha com a pontuação por tempo de serviço e em títulos. Seguindo o exemplo anterior, um professor com 10 anos de serviço (vamos supor mais uma vez nenhuma falta), mestrado, doutorado e com acerto de 80% na provinha teria uma pontuação igual a 10+5+10+64=89 pontos. Ou seja, a provinha teve um peso muito maior sobre a nota final quando comparada aos critérios "antigos".

A anulação da provinha
Desde a greve do meio do ano de 2008, a APEOESP tem criticado a provinha. O sindicato diz que a intenção da SEESP é enxugar a folha salarial, afastando os OFAs mais antigos e repondo por novos, que começariam ganhando menos do que os que tem mais tempo na rede de ensino. Como esse argumento obviamente não foi o suficiente para fazer a Secretaria voltar atrás na decisão de criar o processo seletivo simplificado, a APEOESP entrou com um pedido na justiça para o cancelamento da provinha. Esse pedido foi protocolado após a realização da prova. Uma liminar a cancelou, depois a liminar foi cancelada e por fim a prova deixou de ser considerada na classificação dos OFAs, e o sindicato acabou vitorioso. A APEOESP alega ainda que durante a greve foi feito um acordo com o Governo onde se dizia que o peso da prova seria o mesmo dos critérios de classificação dos anos anteriores, o que de fato não aconteceu.

Sindicato x classe
A anulação da provinha é de interesse dos professores sindicalizados e não da classe como um todo. O pedido de cancelamento tomou como base as irregularidades ocorridas durante a prova, como um suposto vazamento do gabarito, provas não lacradas e inexistência de qualquer comprovante para quem fez a prova. Perceba, somente críticas à forma como a prova foi realizada e não à sua proposta.

Em momento algum houve qualquer tipo de defesa a todos os professores, a não ser dos mais antigos e sindicalizados; foi dito que os professores mais antigos seriam prejudicados com a nova classificação, e tal argumento é sustentado pelo sindicato até hoje. A APEOESP em momento algum defendeu os professores que estão ingressando no sistema de ensino estadual, que seriam beneficiados com a prova e, por que não?, trariam para as escolas estaduais um espírito renovador, dando cara nova e mais energia para um sistema de ensino caquético, viciado, desesperançoso da capacitação dos jovens, destruidor do futuro de milhares de crianças. Essa mesma entidade não defendeu a provinha quando esta poderia mostrar o porquê de professores com dezenas de anos de serviço serem incapazes de passar em um concurso do estado, ou incapazes de acertar uma questão sobre os PCNs, pois nunca o leram.

Veja, não estou atacando todos os professores velhos mas sim todos os professores oportunistas, velhos e jovens, que se encaixam nesse perfil e que têm interesse na anulação da prova. Nem mesmo ouso defender o atual formato de concurso, incapaz de medir a capacidade do professor. Também acho importante a realização anual de concursos, priorizando a efetivação dos profissionais em detrimento de cargos precários, e vejo como um descaso do Governo manter 100 mil cargos de professores temporários anualmente. Nada disso me deixa menos claro o interesse da APEOESP, que com uma atitude oportunista conseguiu reverter a prova, em defender os professores sindicalizados, numa atitude puramente corporativista e comprometedora da coesão da classe de professores.

O dia da atribuição
"Vocês que são novos, querem começar a dar aula agora, têm que ter paciência, por que eu não tenho mais". Essa frase retrata perfeitamente a visão que tenho dos que atualmente constituem o quadro de professores e funcionários do sistema de ensino do estado de SP. Foi justamente um deles, um dos organizadores presentes no dia da atribuição, quem me soltou essa pérola.

Depois dos problemas da anulação da provinha, o que acarretou o atraso da atribuição de aulas em 3 dias, cheguei às 9h da manhã no colégio Fernão Dias, na r. Pedroso de Moraes - Pinheiros. Posso dizer que naquela diretoria de ensino provisória da região centro-oeste havia pelo menos 1000 professores esperando para ocupar as vagas de várias bancas/disciplinas como OFAs.

A desorganização no local era quase absoluta. 10 professores eram chamados a cada hora para cada banca (1000 professores por, digamos, 10 bancas é igual a 100 professores por hora, ou seja, o processo deveria levar no mínimo 10 horas - um dia inteiro! - para terminar). Meu nome e de muitas outras pessoas não estavam nas listas de classificação dos professores. Demoraram mais de 2 horas para descobrir o porquê de o meu nome não estar em nenhuma daquelas listas. Descobriram que meu cadastro no banco de dados eletrônico da diretoria existia, porém estava em branco. Se eu não tivesse em posse de meu número de inscrição no processo, não sei quantas horas mais demorariam para encontrar minha ficha dentro da papelada deles. Após terem resolvido esse problema, uma das moças que me atendeu disse-me que eu poderia ir embora e voltar só dois dias depois, já que eu estava inscrito como bacharéu - muitas pessoas estavam na minha frente e eu não conseguiria nenhuma aula naquele dia. Quando eu saía, conversei com um camarada e nos ocorreu que a organização poderia comunicar o mesmo para os outros bacharéis que estavam na mesma situação que eu. Voltei e conversei com outra moça, a qual me advertiu que ninguém da "organização" tinha ordem para mandar embora os bacharéis ou qualquer outro tipo de candidato e que eu deveria ficar. Ou seja, contradisse a que me dispensara. Meia-hora depois comunicaram que licenciandos ultimoanistas, bacharéis e tecnólogos deveriam voltar no dia seguinte. Voltei e não tinha mais vaga para mim e os bacharéis.

Conversando com um professor de letras, comecei a perceber que aquilo tudo era normal, anualmente as mesmas confusões acontecem, e a anulação da prova não piorou em nada o processo de atribuição de aulas. Ele me recomendou acessar o sítio eletrônico da diretoria de ensino toda sexta-feira, onde eu poderia ver no link "saldos" as escolas que precisam de professores eventuais. Aliás, não são poucas, pois professores que saem de licença logo no início das aulas existem aos montes.

Não é oficial, mas durante todo o processo o candidato passa por uma prova de paciência. Muitos desistiram, eu ainda não. A minha preocupação com a defesa do ensino público de qualidade ainda é mais forte do que todas as dificuldades impostas pelas circunstâncias que apareceram. Só não sei até quando.

APEOESP
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
Carta da secretária de Educação sobre decisão final quanto à anulação da provinha



Caracol de Caratateua

18 de Março de 2009, por Desconhecido - 44 comentários

Tento aqui descrever uma das experiências que tive na viagem ao Fórum Social Mundial 2009, em Belém/PA. Fico satisfeito com o aprendizado que tive de todas as atividades que pude presenciar no Fórum que, em se tratando de práticas, deixou muito a desejar - até justificável pela enorme dimensão e diversidade de posturas que vêm agregando em si com o passar das nove edições, sem contar seu caráter turístico dado pelo financiamento dos governos federal e do Pará. No entanto, o que me marcou de verdade foi a passagem, embora muito curta, pelo caracol zapatista de Caratateua, uma iniciativa paralela e alternativa à do Fórum em uma ilha próxima à capital do Pará.

O que é um caracol zapatista?


Os caracóis foram idealizados pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional como centros de comunicação autônoma e de cultura social. O nome vem da metáfora das conchas de caracóis usadas como intrumento de comunicação, como o anúncio de eventos, por povos indígenas. Diz-se também que os primeiros deuses maias, "os sustentadores do mundo", traziam consigo caracóis em seus corações, o que só vem a enriquecer esse símbolo. Há alguns anos o EZLN passou por mudanças em sua estrutura e a morte dos centros culturais chamados aguascalientes cedeu espaço a "los caracoles" (saiba mais, em inglês). Na interpretação do Subcomandante Marcos, os antigos aguascalientes agora são "a porta para os excluídos entrarem nas comunidades e para as comunidades acessarem o mundo de fora".
Um caracol pode ser visto também como uma base usada na produção de coisas, que são consumidas e trocadas pela produção de outros carácois que, juntos, formam uma rede de trocas. Essa troca não se restringe a bens materiais mas se estende aos culturais, às experiências de formas de organização igualitárias e de resistência ao poder que explora o homem, vivenciadas pela comunidade que dele fazem parte. O caracol segue um modelo autogestinário (saiba mais sobre autogestão).

O caracol de Caratateua

Todas essas interpretações em nada impedem a resignificação do caracol idealizado pelo EZLN. É o que parece estar acontecendo na ilha de Caratateua (também conhecida como Outeiro, nome de um de seus bairros). Por curiosidade: o nome Caratateua foi dado pelos indígenas devido ao formato da ilha lembrar uma batata grande. A ilha é um distrito administrado pela prefeitura de Belém do Pará e sofre de problemas recorrentes nas regiões periféricas das grandes cidades, normalmente causados pelo descaso da organização central. Foi escolhida para ser também um nó da rede Flor da Palavra. Como você pode ler aqui, "a rede Flor da Palavra começou a ser inventada em 2006 de forma não planejada e sem uma grande convocatória, graças à grande quantidade e variedade de iniciativas de grupos e indivíduos do campo autonomista brasileiro e mexicano, em particular os ligados à mídia livre, que deram forma à organização horizontal e colaborativa de eventos sobre o zapatismo e as lutas locais. A 'facilidade' com que se instaurou esse processo organizativo horizontal apontava o amadurecimento de um interesse amplo pelo zapatismo no Brasil, e de sua capacidade para conectar movimentos e outros lutadores sociais. Diante disto surgiu a idéia de começar a invenção de rede Flor da Palavra, sem renunciar à forma colaborativa e aberta de organização". Ou seja, tenta-se fazer do caracol de Caratateua um espaço autônomo e horizontal e integrado com a comunidade em que se contextualiza, ao mesmo tempo interligado a uma rede de caracóis, apoiado em iniciativas igualitárias e em uma proposta de levar ao grupo social do qual faz parte um modelo de convivência alternativo ao que se tem hoje ditado pelo Estado e pelas outras formas de poder vigentes.
Para a fixação de uma sede na ilha, o que viabiliza a integração da comunidade com o caracol enquanto centro social autônomo, há uma arrecadação para a compra de um terreno que sirva como sede para o caracol, e parece que o dinheiro doado até então é suficiente.

O Caracol no dia 31/1/9

Meu primeiro contato com o caracol de Caratateua foi pelo site do CMI. Na verdade, dois amigos, Nabo e João Tragtemberg, me falaram sobre ele ao saberem que eu iria à Belém. Fiquei interessado ao saber da proposta de autogestão e horizontalidade. Infelizmente reservei apenas o último dia de minha estadia na capital do Pará para visitar a casa que está sendo alugada como sede do caracol; um dia não seria suficiente para ajudar os colaboradores que tocavam as atividades no local, quem dirá as poucas horas que passei lá com os companheiros que fiz no ônibus e acampamento, durante a viagem. Saímos da UFRA, onde acampávamos, no dia 31/01 por volta das 9h. Chegamos perto das 11h. Não foi difícil encontrar a rua São Miguel, 160, logradouro do caracol, principalmente com a ajuda de D. Socorro, uma senhora simpatissíssima, moradora do Bairro da Brasília, que conhecemos na lotação que pegamos em Icoaraci, bairro de Bélem. Quando chegamos, encontramos na casa alugada 20 ou mais pessoas e, pelo que conversei com alguns presentes, todos os dias ao longo daquela semana (quando a casa começou a ser usada como centro) manteve-se essa média de pessoas presentes, embora à noite dormissem menos pessoas - por volta de 5. Quando cheguei, havia um grupo fazendo o almoço comunitário - arroz, lentilha e um tipo de farofa - essencialmente vegano, em respeito aos que estavam presentes, e cartazes para divulgação do Encontro Amizade Caratateua. O grupo com quem fui rapidamente integrou-se naquelas atividades e ajudou na compra de alguns alimentos para o almoço.

Encontro da Amizade
O Encontro procedeu da seguinte forma: começou com um multirão para coleta de lixo espalhado na praça Amizade, onde foram realizadas as atividades do Encontro, e na praia da Brasília. Em seguida, foi feita a caminhada e um protesto com a afixação de mensagens e depósito do lixo coletado na sede da Administração Regional, denunciando o descaso com relação à coleta de lixo no local por parte da Prefeitura de Belém. Então foram oferecidas oficinas de respiração e naturologia, inspirado em estudos diversos envolvendo yoga e outras práticas, de compostagem e de construção de instrumentos musicais com materiais coletados da floresta, seguidas da apresentação do Grupo Tucuxi de carimbó (expressão cultural da região). Não participei do Encontro todo, apenas da coleta de lixo, pois voltamos para Belém em torno de 15h30, antes da caminhada e do protesto. De acordo com relatos que venho lendo no site do CMI, muitos dos moradores participaram do evento e aceitaram bem a iniciativa do caracol em promover um evento integrativo, assim como vêm encarando bem sua proposta. Obviamente existe alguns resistentes e oportunistas, mas parece não ser suficiente para desmobilizar ou desacreditar a iniciativa.

Minhas impressões

A sensação que tive no caracol foi de muitas pessoas trabalhando para que ele funcionasse. As pessoas estavam de fato engajadas em colocar a ideia em prática e, em particular, fazendo o possível para o Encontro acontecer da forma mais organizada possível. E, pelo que li, de fato aconteceu. Havia uma preocupação por parte de todos na integração da comunidade com o caracol enquanto centro social, até porque de outra forma tal iniciativa não faria sentido; incorporar as atividades no dia-a-dia das pessoas e fazer com que o caracol funcione de forma orgânica dentro, ou melhor, com a comunidade é o sentido final para tudo isso, visando a prática de um modelo de convivência autogestionário, alternativo ao determinado pelo capital e que acredita-se ser o único possível. Foi consenso que a mobilização se tornou mais intensa devido ao Fórum, assim como havia a preocupação de o inverso ocorrer ao final do mesmo. Isso pode vir a comprometer a permanência das pessoas que estão tocando a construção do caracol e da consolidação do iniciativa na comunidade de Caratateua. Me parece que o número pequeno de pessoas que ficaram na ilha e a distância dos colaboradores, que estão voltando para suas cidades devido ao fim do Fórum, é um fator decisivo para o sucesso ou não do caracol. Por isso já existe uma mobilização para uma caravana que sairá em julho para a ilha, tendo em vista a necessidade de aplicar forças na manutenção do centro.
O que mais me impressionou foi ver, enfim, pessoas comprometidas com um ideal igualitário e sua prática. Lá as coisas estão sendo feitas de verdade e as dificuldades estão sendo transpostas com empenho geral. Pode haver uma série de críticas sobre o que se tenta construir naquele espaço, mas para quem está ou esteve presente no Encontro e ao longo daquela semana não havia críticas suficientemente consistentes ou que dessem motivo para não se tentar colocar em prática um modelo social alternativo e mais justo, ao mesmo tempo sustentável. E a vontade das pessoas de se fazer as coisas acontecerem mexeu demais comigo, e me fez voltar para São Paulo muito disposto a buscar novas práticas que contemplem algumas de minhas vontades antigas, principalmente a de implementar uma autogestão. Percebi que é possível praticar um mundo diferente e muito mais justo do que o que vivencio hoje.

Questões a serem levantadas

Dessa reflexão surge uma série de dúvidas e críticas sobre o funcionamento do caracol e a ideologia por trás da iniciativa. Uma pergunta básica em reação à proposta é se há contradição no uso de dinheiro dentro da iniciativa, tendo-se em vista que ela se propõe como alternativa ao modelo capitalista. Isso não me parece um problema, pois até o funcionamento pleno do caracol há uma fase de transição em que os modelos econômicos vigente e proposto devem se misturar. A ideologia a princípio pode parecer contraditória mas na prática me parece ser a forma real de se construir um caracol em interação com a comunidade. Outra pergunta é sobre onde entra o zapatismo na ideologia. Como já disse, não me parece ser um problema a releitura do caracol zapatista, até porque o próprio caracol é uma transição do que se idealizava pelo EZLN nos aguascalientes na década de noventa, uma evolução da proposta original. O que não foge do contexto é a organização horizontal, autogestionária e livre de exploração do homem e da natureza.
É factível que, quando o caracol estiver integrado com a comunidade em sua plenitude e a autogestão viabilizada, haja problemas do ponto de vista da legislação imposta pelo Estado, por exemplo no que trata da arrecadação de impostos sobre sua produção, dando espaço às sanções legais dentro da concepção de governo vigente. Vale a analogia entre o Estado e um gás, que sempre preenche o espaço vazio deixado pela ausência de outro, o que pode fazer com que o Estado brasileiro tente impedir o avanço da comunidade alimentada pela autogestão, violentando e engolindo essa convivência alternativa. Esse é um problema sério para o qual não tenho uma resposta pronta, e que gostaria de discutir e compartilhar com outras pessoas.
Espero que o texto tenha contribuído com a compreensão da minha impressão do que se passa no caracol de Caratateua e do que está sendo proposto por seus idealizadores. É preciso deixar claro que estive lá por pouco tempo e que o texto, por retratar minha leitura daquela iniciativa, está plenamente aberto à discussão.

Fotos do caracol e da praça Amizade no dia 31/1/9
Encontro Amizade Caratateua em 31/1/9
Reportagem do Diário do Pará sobre o Encontro Amizade Caratateua
Entrevista de 2004 explicando sobre o nascimento e o funcionamento dos caracóis e das Juntas de Bom Governo
Sobre o FSM2009
Economia solidária



A falácia do evolucionismo social

18 de Março de 2009, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Hoje um camarada insinuou que a França, assim como os outros países europeus, são mais evoluídos que o Brasil. Isso aconteceu quando ele contava que as pessoas de lá costumam não respeitar filas, furando-as com a maior cara-de-pau - ele achou estranho um país evoluído ter pessoas que se comportam dessa maneira. Como de praxe, me intrometi e disse que talvez isso fosse um sinal de que essa história de países evoluídos talvez fosse uma mentira e essa evolução social não existisse. Ele respondeu que existe sim e como exemplo citou um episódio em que ele, na Europa, se atrasou e não chegou na estação a tempo de embarcar no trem para Paris. Explicou o caso para a moça do guichê, a qual sem rodeios entregou a ele um novo bilhete para o trem do horário seguinte - não bastasse, ainda devolveu 25 euros referente à diferença entre os dois horários.
Isso é evolução? A cordialidade ou domesticação de um serviço (público?) implica que TODAS as civilizações deverão no fim dos tempos ter passado por tudo o que a Europa sofreu na história? Todos os países, inclusive Japão, Indonésia, Argélia, Austrália, deverão passar pela Inquisição da Igreja Católica para que seus cidadãos sejam tão educados quanto os franceses?
Vou tentar fazer meus vínculos entre o sucesso evolutivo da Europa e o fracasso brasileiro. Para começar, pensemos em nosso país, onde a criminalidade é alta: é um país atrasado? Há quanto tempo estamos de atingir o estágio evolutivo da Inglaterra? Onde será que erramos? Talvez na proclamação da república, quando abrimos mão de um rei, uma imagem folclórica da qual os ingleses se orgulham de ter como chefe de estado. Talvez em um Brasil monárquico os criminosos daqui pudessem ter mais respeito aos bens materiais de seus irmãos de solo. E a Índia? É uma pena ser um país tão atrasado que, apesar de ter sido uma colônia inglesa, nunca atingirá o estágio evolutivo do povo estadunidense - e demorará para alcançar o fantástico número de assassinatos por armas de fogo registrado nos EUA.
Acreditar que o evolucionismo de Darwin pode explicar como as sociedades se modificam no tempo é puro positivismo: não há razão alguma para acreditar que haja uma "seleção natural" das sociedades. Lembram do exemplo do rapaz do censo populacional, que após passar por três casas seguidas onde moravam em cada uma delas um John Williams concluiu que em todas as casas seguintes ele encontraria outros John Williams? Não há pressupostos para que a bela teoria darwiniana, que explica em toda sua glória como os seres vivos evoluem, se ajuste a todos os tipos de eventos em nosso planeta, quiçá nem mesmo do Universo! Sem exagerar, é mais fácil levar em conta o desenvolvimento de cada uma das sociedades, das menos tecnológicas às mais socialmente justas, como resultado de uma escolha dentre um amplo espectro de caminhos a serem tomados, de forma que nenhuma das opções escolhidas por cada sociedade deve ser mais importante do que as outras. Não é justo dizer que as populações indígenas sejam primitivas e que fizeram a escolha errada. Simplesmente optaram (talvez de forma inconsciente) por não sofrerem da desgraça das grandes civilizações, como genocídios, pestes, exploração do trabalho, dentre tantas outras mazelas inerentes a países com grandes populações. Achar que os índios deveriam ter desenvolvido um Estado é mero eurocentrismo.
É certo que em se tratando de tecnologia temos muito que aprender com a Europa. Até posso estar enganado, mas o nazismo, o facismo e a intolerância racial fazem parte do mundo europeu, não fazem? Ou um Darwin sociólogo não levaria essas características em conta em sua teoria de evolução?
Até quando vamos reproduzir esse discurso preconceituoso e antiquado dos evolucionistas do século XIX?